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Epilepsia na mulher: anticoncepção, gestação, parto, puerpério e amamentação

Profa Dra Elisabete Castelon Konkiewitz. É médica, tem doutorado em Neurologia realizado na Alemanha, tem especialização em duas áreas - Neurologia e Psiquiatria, atua como professora associada da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), onde também é pesquisadora.
Foto: reprodução

Por: Dra. Elisabete Castelon Konkiewitz

O cérebro pode ser representado como um conjunto de circuitos elétricos, formando redes intrincadas e complexas. Nossas funções —como movimento, fala e pensamento—, resultam do disparo preciso de uma unidade para outra. Aqui um erro mínimo pode ter grandes consequências.

Se o cérebro é um circuito, então uma crise epiléptica pode ser imaginada como um “curto-circuito transitório”. De fato, todos nós podemos sofrer uma convulsão, se o nosso cérebro for colocado em situações anormais, como queda extrema da glicose, alteração dos sais do corpo, infecção, febre, privação do sono, drogas, etc. Epilepsia, pelo contrário, designa um cérebro com a tendência intrínseca de sofrer espontaneamente despolarização anormal e simultânea de milhões de neurônios (o “curto-circuito”), levando a manifestações involuntárias, como perda da consciência, abalos musculares, alterações de comportamento, movimentos sem propósito e percepções incomuns (enxergar tudo maior, tudo menor, ter a sensação de que a cena presente já aconteceu, etc.).

Epilepsia é um fenômeno amplo com causas e evoluções clínicas bastante diversas, podendo ser a consequência de lesão cerebral por AVC, traumatismo, tumor, infecção, mas também por malformações e doenças congênitas. Na maioria das vezes, porém, a epilepsia tem causa desconhecida e acredita-se que se origine da combinação de vários genes que resultam em um cérebro com desequilíbrio entre excitabilidade e inibição. Causa genética não significa necessariamente hereditária, pois pode resultar de mutações de novo, ou seja, até então inéditas nos ancestrais da pessoa acometida.

O tratamento da epilepsia começa com o diagnóstico preciso. A partir dele define-se a causa de base que determinará a conduta, por exemplo, a retirada de um tumor, o tratamento de uma infecção, etc. Na maioria dos casos, porém, a causa permanece desconhecida (epilepsia criptogênica) e o tratamento consiste no uso de anticonvulsivantes.

Cerca de 2/3 dos pacientes ficam com suas crises controladas, quando em uso de um ou dois medicamentos. Todavia, 1/3 mostra refratariedade e essas são as situações em que a conduta cirúrgica pode estar indicada.

A epilepsia é mais comum em países de baixa renda, atingindo no nosso país cerca de 2% da população. Se tivéssemos melhor assistência às mulheres durante gestação e parto (redução do número de crianças com injúria cerebral), menos acidentes automobilísticos (prevenção de traumatismo craniano) e melhores condições de higiene (diminuição de casos de neurocisticercose) esse número seria bem menor.

Por abranger situações tão diversas, a epilepsia tem tratamentos e resultados clínicos também variados. Apesar disso, de um modo geral, pode-se dizer que a maioria das pessoas em tratamento com medicação anticonvulsivante fica livre das crises. Entretanto cerca de 1/3 delas não melhora e necessitaria de intervenções mais complexas, como neurocirurgia, ou estimulação cerebral, realizadas apenas em poucos centros no Brasil.

A causa mais comum de refratariedade no adulto é a epilepsia mesial temporal que, na maioria das vezes, se deve à lesão anatômica (com morte neuronal e gliose) denominada esclerose hipocampal. A retirada da área acometida (área epileptogênica) tem excelentes resultados em relação ao controle, ou remissão das crises, mas pode resultar em prejuízo de memória, ou linguagem e por isso necessita de avaliação pré-cirúrgica cuidadosa. Além disso, justamente pelo fato de o cérebro ser composto de circuitos, a área epileptogência pode mudar os padrões de disparo de outras regiões, que também passam a ser focos de crises.

O maior problema da epilepsia é a ignorância que, alimentando o preconceito e o estigma, retarda, ou até mesmo impede a busca de ajuda profissional. O segundo problema é a escassez de profissionais e serviços médicos especializados. Sabe-se hoje que não basta deixar o paciente livre de crises. É preciso considerar outros transtornos que frequentemente as acompanham, como a depressão, a ansiedade, problemas cognitivos (prejuízo de memória, linguagem, concentração), insônia, apneia do sono, sonolência durante o dia, efeitos colaterais dos medicamentos, deficiência de vitamina D, etc.

As pessoas com epilepsia sofrem por vários motivos. Viver sob o constante risco de uma crise que causaria constrangimento, além de potencias acidentes, estar sob os efeitos colaterais dos medicamentos e ter limitações profissionais e sociais (não poder trabalhar em altura, com máquinas, condução de veículos, etc.) é bastante difícil, mas ser visto como louco, ou possuído é ainda pior.

Confira o video da Dra.

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